segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Brasileiros e suas "brasileirices"

Hoje presenciei uma cena que me fez refletir o pensamento do brasileiro. A falta de consciência de classe e de reconhecimento dos próprios direitos está profundamente arraigada na consciência do nosso povo. Aí um grupo fica a mercê de uma liderança, e o contato com o poder pode transformá-la em coisa boa ou ruim.
Estava eu na fila da Caixa Econômica pra fazer um depósito no feriado de hoje. A fila estava um pouco grande, e do lado de fora havia um grupo de trabalhadores. O banco está em greve, mas o gerente estava lá, e havia dito ao grupo que o salário deles não sairia hoje, que não tinha autorização para liberação do dinheiro. Falou e correu pra dentro da agência. Prestando atenção na conversa (feita em voz alta, por sinal), descobri que eram empregados de uma firma terceirizada das obras da COMPERJ, que aguardavam a quase 1 ano a liberação do dinheiro.
No grupo haviam mais de 10 homens, mas apenas 1 deles estava totalmente informado sobre os pagamentos. Ele brandava que o pagamento tinha sido autorizado no dia 18 de agosto, de acordo com o procurador "fulano de tal", do Ministério Público, e que na semana passada um outro grupo havia passado pelo mesmo problema em outra agência, e que a liberação do dinheiro só rolou porque fizeram pressão no gerente da Caixa. Que o sindicado estava sacaneando eles, e que por isso tinha que cobrar diretamente.
Inconformado, ele chamava os parceiros para entrar na agência e confrontar o gerente. Disse que não conseguiu falar com o tal procurador por conta do feriado, mas que tinha todas as informações, e disse que o banco segurava o dinheiro ao máximo pra empreiteira pra poder render mais juros a mesma. O cara realmente tentou mobilizar os companheiros para lutar por um direito deles, afinal de contas, trabalharam pra isso e esperavam muito tempo essa liberação.
Então ouvi o cara falando que entraria na agência para pressionar o gerente, mas que não iria sozinho. Aí ele chamou a galera, e só uns 3 ou quatro vieram de um grupo de mais de 10. Então ele disse que não iria meter o peito pra beneficiar quem não lutava junto. Certíssimo. Mas ainda assim, por conta da confusão, o gerente saiu e foi conversar, mas ele disse que a turma voltaria amanhã pra pegar o dinheiro, agora com a presença do tal procurador.
Agora vejam vocês, como é que o brasileiro é. Um grupo, uma classe, literalmente esculachada por uns facínoras exploradores, trabalhadores braçais. Um ano sem receber. E só um deles a par da situação do dinheiro que eles ralaram pacas pra receber. E quando esse único sujeito tenta peitar o ex patrão e pleitear sua grana, não tem apoio dos mal informados - e preguiçosos também. É mais fácil deixar um sujeito se expor, brigar e colher os louros do que entrar no campo de batalha.
Aqui o cara é educado pra ser esculachado e ficar quieto. E de repente aparece um homem que tenta meter uma bronca e tem apoio de poucos. Ficam sem representação e não fazem nada - só esperam. É nessa que os sindicatos deitam e rolam. É nessa que empreiteiras ligadas a esquemas de governo deitam e rolam. É nessa que o resto da população se fode, porque na hora de receber o provento, todo mundo quer, mas na hora de botar a cara pra conquistá-lo, o povo debanda e deixa um Cristo pra salvar a todos.
O brasileiro não quer saber de nada, não acredita na política e não se importa de tomar no rabo. Não quer se informar, não liga pra quem o representa. Só quer gozar no final, o que sobrar é lucro. Olhem pro Congresso Nacional - muito fácil perceber que ninguém sabe o que os caras fazem dentro do plenário e nem se importam. Os trabalhadores que estavam na Caixa Econômica, estavam lá pra receber, mas nem sabiam direito sobre o próprio dinheiro. E eles ralaram pra obter, porra! Aí esse cara que se informou mais e tentou liderar uma cobrança fica sem apoio. Mas se chega um filho da puta lá desta empresa oferecendo uma "bala juquinha" e mandando os caras voltarem pra esperar até o próximo mês, todo mundo mete o pé.
Acontece que o brasileiro é treinado pra ser assim. É interesse pra quem governa disciplinar os "cachorrinhos" dessa pátria a apanhar do dono e abaixar o rabo pra receber as sobras do almoço. Estupidez aqui é recompensada com conformismo. Não entendo isso, nunca vou entender.

Um comentário:

  1. Já passei por isso, numa causa que teríamos direito a um valor X, o gestor/gerente/prefeito jogou uma conversa mansa e os outros sete colegas engoliram e terminamos recebendo menos de 20% do valor que era um direito nosso. Jogou um papo de que iria demorar se continuássemos na justiça e terminou que fizeram um acordo e eu fui um mané e entrei na onda também. Como me arrependo de não ter continuado sozinho...

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